Urânio atinge recorde, mas ações nucleares recuam
O preço de longo prazo do urânio subiu para 96 dólares por libra, acima do máximo de 95 dólares de meados de 2007. A Cameco caiu em 2026 apesar da subida da matéria-prima.
O que se passou
O preço de longo prazo do urânio chegou a 96 dólares por libra, superando o máximo de 95 dólares por libra registado em meados de 2007. Este preço serve de referência para contratos plurianuais assinados por empresas de eletricidade para alimentar reatores nucleares.
A subida não se refletiu nas principais ações ligadas ao nuclear. A Cameco fechou a 2 de outubro nos 85,18 dólares, uma queda de 6,9% em 2026. No último mês, a ação recuou 11,62%, de 96,38 dólares para 85,18 dólares, e está abaixo do máximo de 52 semanas de 135,24 dólares.
Nos resultados do primeiro trimestre de 2026, divulgados a 5 de maio, a Cameco indicou que o preço médio de longo prazo tinha subido para 91,50 dólares por libra. O preço spot aumentou 34% face ao ano anterior para 88,49 dólares por libra. A empresa disse também que 69% da receita já estava ligada a preços de mercado, contra 51% um ano antes.
O efeito nas contas ainda foi desigual. O resultado líquido ajustado subiu para 145,59 milhões de dólares, face a 50,20 milhões. Mas a receita ficou em 606,30 milhões de dólares, abaixo do consenso de 815,13 milhões, uma diferença de 25,62%. O preço realizado pela Cameco no trimestre foi de 65,45 dólares por libra, bastante abaixo do preço spot perto de 88 dólares.
O que isto significa
A subida do urânio, isolada, não chega para explicar a valorização das empresas do setor. A Cameco vende parte relevante da produção através de contratos já assinados, e esses contratos demoram a refletir os preços mais recentes do mercado.
O mercado está a penalizar esse atraso. A ação negoceia com um PER histórico de 149 e um PER estimado de 52, múltiplos que pressupõem uma conversão rápida de preços mais altos em resultados mais altos. Os números do primeiro trimestre mostram que essa passagem ainda não é imediata.
Também há sinais de hesitação do lado dos compradores. A contratação de longo prazo caiu cerca de 15% em termos homólogos para pouco mais de 38 milhões de libras até 31 de agosto. As empresas de eletricidade parecem relutantes em fechar contratos a estes preços.
A oferta continua apertada, com atrasos ligados à produção de ácido sulfúrico no Cazaquistão e restrições russas às exportações desse produto até ao fim do ano. Para quem investe, o dado decisivo passa a ser o volume de contratos assinados. Um preço recorde só muda a história das empresas se entrar nos livros de encomendas.
Porque deves querer saber
O preço alto ainda não chegou todo à Cameco
A Cameco beneficia de preços de urânio mais altos, mas não de forma automática. O preço realizado no primeiro trimestre foi de 65,45 dólares por libra, enquanto o preço spot estava perto de 88 dólares.
Essa diferença ajuda a explicar a queda da ação apesar do recorde da matéria-prima. Os investidores esperavam uma tradução mais rápida para receitas e margens, sobretudo com uma avaliação já exigente.
A empresa também enfrenta riscos operacionais. Foram referidos possíveis direitos aduaneiros dos Estados Unidos sobre urânio, uma paragem prolongada no terceiro trimestre na unidade de Key Lake e 559 milhões de dólares retidos num litígio fiscal no Canadá.
O nuclear continua dependente de contratos reais
A subida do urânio mostra aperto na oferta, mas a procura contratada ainda não acompanha o preço. A contratação de longo prazo caiu cerca de 15% até 31 de agosto, mesmo com a matéria-prima em máximos.
As empresas de eletricidade precisam de garantir combustível para reatores, mas preços recorde podem adiar decisões. Sem novos contratos, o recorde fica mais visível no gráfico da matéria-prima do que nas contas das empresas.
A expansão do consumo elétrico e o interesse em energia nuclear mantêm o setor no radar. A diferença está no calendário. A procura futura só pesa nas ações quando se transforma em volumes contratados e entregas previstas.

