Novartis fecha acordo com Abogen até 7,8 mil milhões de dólares
A farmacêutica suíça comprou os direitos globais de uma terapia experimental de RNA mensageiro para doença autoimune. O acordo junta-se a uma vaga de parcerias entre grandes farmacêuticas ocidentais e biotecnológicas chinesas.
O que se passou
A Novartis assinou um acordo de licenciamento com a chinesa Abogen Biosciences que pode atingir 7,8 mil milhões de dólares. O ativo principal é um tratamento experimental em fase inicial para doença autoimune, baseado em RNA mensageiro.
A farmacêutica suíça vai pagar 575 milhões de dólares à cabeça pelos direitos globais da terapia. O contrato prevê ainda 7,2 mil milhões de dólares em pagamentos ligados a metas de desenvolvimento e comercialização.
A Novartis fica também com uma opção exclusiva para licenciar ativos desenvolvidos pela Abogen na sua plataforma de RNA.
O anúncio surge depois de as ações da Novartis terem registado no mês passado a maior queda desde 1987, após vários contratempos em ensaios clínicos. Esses resultados levantaram dúvidas sobre a capacidade da empresa para alimentar a sua carteira de novos medicamentos.
O que isto significa
A Novartis está a comprar acesso a ciência externa num momento em que o setor se prepara para a perda de exclusividade de medicamentos muito vendidos no início da década de 2030. Essa perda de patentes pode abrir a porta a genéricos ou biossimilares e reduzir receitas de produtos estabelecidos.
O licenciamento permite à empresa ficar com direitos sobre uma terapia sem comprar a Abogen. Se o medicamento falhar ou deixar de encaixar nas prioridades de desenvolvimento, o risco é diferente do de uma aquisição total.
A China está a ganhar peso como fonte de moléculas para as grandes farmacêuticas. A ING estima que o país represente cerca de um terço das novas moléculas nas carteiras globais das farmacêuticas em 2026, contra 4% em 2014.
A mesma estimativa aponta para mais de 250 mil milhões de dólares em acordos de licenciamento de biotecnologia chinesa em 2026. Para quem investe no setor, a origem da inovação passa a pesar tanto como a dimensão comercial das empresas que a distribuem.
Porque deves querer saber
A Novartis tenta reforçar a carteira de medicamentos
O acordo dá à Novartis acesso global a uma terapia ainda em fase inicial, mas com uma tecnologia que a empresa pode explorar para além deste primeiro ativo. A opção sobre a plataforma de RNA da Abogen aumenta o alcance potencial da parceria.
A reação recente às falhas em ensaios clínicos mostrou como o mercado penaliza dúvidas sobre a renovação do pipeline. Este acordo não resolve esse problema sozinho, mas mostra que a Novartis está a procurar ativos fora dos seus próprios laboratórios.
A China ganha espaço na inovação farmacêutica global
As grandes farmacêuticas ocidentais estão a recorrer mais a empresas chinesas para encontrar tratamentos em desenvolvimento. Novo Nordisk, GSK e AstraZeneca também surgem ligadas a acordos recentes com biotecnológicas chinesas.
O modelo de licenciamento encaixa nos dois lados. As farmacêuticas compram direitos sobre medicamentos promissores sem assumir toda a empresa, enquanto as biotecnológicas chinesas recebem financiamento e mantêm atividade no seu mercado doméstico.

