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Mercados

A bolsa americana está em máximos, mas está mais barata do que em junho

O S&P 500 não para de bater recordes e, mesmo assim, paga-se hoje menos por cada dólar de lucro futuro. Explico porquê, o que isto diz sobre as grandes tecnológicas e onde estão os riscos.

Pedro Santos
08 de outubro de 2026, 09:106 min de leitura
A bolsa americana está em máximos, mas está mais barata do que em junho

O que se passou

Sempre achei curiosa a forma como reagimos à bolsa. Quando as coisas correm bem, o medo não desaparece. Este ano tem sido assim: as empresas americanas estão a apresentar lucros fortes, os índices fazem máximos atrás de máximos, e mesmo assim continuo a ler todos os dias que a bolsa está cara e que vem aí uma correção.

Só que um preço recorde não é o mesmo que uma avaliação recorde. E os números da FactSet mostram uma coisa que pouca gente está a ver.

O rácio P/E forward do S&P 500, ou seja, quanto pagas hoje por cada dólar de lucro que as empresas devem ter nos próximos 12 meses, caiu de 20,4 vezes no fim de junho para cerca de 19 vezes. Está abaixo da média dos últimos cinco anos, que é de 19,8 vezes, e mesmo abaixo da média dos últimos dez anos, de 19,1 vezes.

O índice subiu, mas os lucros esperados subiram ainda mais depressa. Por isso a bolsa está, ao mesmo tempo, mais alta e mais barata.

O que isto significa

Uma bolsa que sobe porque os lucros sobem é muito diferente de uma bolsa que sobe só porque as pessoas aceitam pagar mais. A primeira assenta em resultados. A segunda assenta em entusiasmo.

Neste momento, os números apontam mais para o primeiro caso. Os analistas continuam a rever as estimativas de lucro para cima, e cada vez mais empresas sobem as suas próprias previsões.

E onde isto se vê melhor é nas quatro grandes empresas de cloud e inteligência artificial, a Microsoft, a Alphabet, a Amazon e a Meta. No último trimestre, as quatro cresceram as receitas a dois dígitos, mesmo com os gastos em inteligência artificial a disparar.

A Microsoft cresceu as receitas 18%, e o Azure, o negócio de cloud, cresceu 43%. Pela primeira vez, o Azure passou os 100 mil milhões de dólares de receitas num ano.

A Alphabet faturou 119,8 mil milhões de dólares no segundo trimestre, mais 24%, com a Google Cloud a crescer 82%.

Na Amazon, o resultado operacional subiu 43%, para 27,5 mil milhões de dólares, e a AWS cresceu 37%.

A Meta também apresentou bons resultados. O que mais tem pesado é o Muse, o seu agente de inteligência artificial, que a põe a competir diretamente com a OpenAI e a Anthropic. Mas é a exceção nas revisões, porque nos últimos três meses os analistas cortaram mais vezes as estimativas de lucro da Meta do que as subiram.

Com tudo isto, seria de esperar que estas ações estivessem nos máximos da sua avaliação histórica. Mas não estão. A Microsoft e a Amazon negoceiam abaixo da sua média dos últimos três anos, olhando para o P/E forward. A Alphabet é a mais exigente, a cerca de 29 vezes os lucros, contra uma média de 22,6. A Meta está a 24 vezes, perto da sua média de 22. Para comparar, o Nasdaq-100 está a cerca de 22 vezes.

O ponto que o mercado mais tem discutido é o dinheiro que estas empresas estão a gastar em data centers. Eu acho que esse receio tem sido exagerado. São negócios que geram muito dinheiro todos os trimestres fora da inteligência artificial, e por isso conseguem pagar grande parte deste investimento com o que ganham, sem depender demasiado de dívida.

Porque deves querer saber

O crescimento está a espalhar-se

Até aqui, quem puxou pelos lucros foram sobretudo os chips e a memória. Isso não vai mudar de um dia para o outro, mas está a deixar de ser só isso.

Segundo a FactSet, o setor de tecnologia deve crescer os lucros 65% no terceiro trimestre. Os semicondutores sozinhos crescem cerca de 130%. Mas mesmo tirando os chips da conta, a tecnologia continua a crescer perto de 24%, com o software, o hardware e os serviços de informática a contribuírem.

As comunicações, onde estão a Alphabet e a Meta, devem crescer os lucros 51,5%.

E há uma surpresa fora da tecnologia. A energia foi o setor onde os analistas mais subiram as estimativas de lucro, por causa do petróleo mais caro. As refinarias são as que mais ganham. A Marathon Petroleum, a Valero e a Phillips 66 tiveram só revisões em alta nos últimos três meses, e negoceiam entre 7 e 9 vezes os lucros futuros. Só que estes lucros dependem do preço do petróleo. Se o barril voltar para os 70 dólares, as estimativas descem com ele.

Nos próximos meses, há três coisas que vou acompanhar de perto. A primeira são os resultados das grandes tecnológicas. Apresentam contas no fim de outubro, e o que disserem sobre o investimento para 2027 vai marcar o tom para o resto do mercado. Se o investimento continuar a subir e a cloud continuar a acelerar, é sinal de que estes gastos se estão a transformar em lucros duradouros.

Depois, o preço do petróleo, porque é dele que dependem as revisões em alta da energia. E as revisões dos analistas para 2027, que vão dizer se este ritmo de crescimento se mantém.

Os riscos, e a minha leitura

O maior risco, para mim, não está nos lucros das empresas. Está fora delas.

A Fed subiu os juros em setembro, e não me surpreenderia mais uma subida pequena até ao fim do ano. Juros mais altos tornam o dinheiro mais caro e costumam pesar nas avaliações, mesmo quando os resultados são bons.

A geopolítica é outra incógnita. O conflito com o Irão tem alternado entre momentos de escalada e conversas de paz, e uma nova escalada pode mudar o sentimento do mercado muito depressa.

E há um pormenor importante. Tudo o que disse acima olha para os lucros futuros. Se olharmos para os lucros dos últimos 12 meses, o S&P 500 está a cerca de 26,5 vezes, bem acima da média histórica. Ou seja, esta ideia de uma bolsa barata depende de as empresas entregarem mesmo o crescimento que os analistas esperam. Se não entregarem, a correção pode ser rápida.

Estou otimista para os principais índices a caminho de 2027. A bolsa está em máximos, mas está mais barata do que estava em junho, porque os lucros estão a crescer mais depressa do que os preços. E acho que as grandes tecnológicas vão voltar a puxar pelo mercado, sobretudo se os próximos resultados confirmarem a força da cloud.

Enquanto os lucros continuarem a crescer mais do que os preços, a bolsa pode continuar a subir e a ficar mais barata ao mesmo tempo. É uma ideia estranha à primeira vista, mas é o que os números estão a dizer.

Isto não é uma recomendação de compra ou venda. É a minha leitura dos números, para te ajudar a perceber o que se está a passar.

Fontes

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