SpaceX compra espectro e pressiona telecoms dos EUA
A empresa quer levar o Starlink mais fundo no mercado móvel norte-americano. As ações da AT&T, Verizon e T-Mobile recuaram nas negociações após o fecho.
O que se passou
A SpaceX anunciou na quinta-feira um acordo para comprar uma carteira nacional de espectro à Grain Management, uma empresa especializada em infraestrutura digital. A transação fica sujeita à aprovação da Federal Communications Commission, o regulador norte-americano das comunicações.
A carteira inclui até 14 megahertz de espectro emparelhado na faixa dos 800 MHz. A SpaceX disse que este espectro de baixa frequência ajuda a preencher uma falha técnica que ainda limitava o Starlink Mobile no caminho para competir como operador móvel nos Estados Unidos.
As ações da AT&T, Verizon e T-Mobile caíram nas negociações após o fecho, depois do anúncio. A SpaceX subiu cerca de 2,5% no mesmo período, após ter recuado 4% durante a sessão regular.
O acordo surge uma semana depois de T-Mobile, AT&T e Verizon terem criado uma joint venture para expandir a cobertura em zonas mal servidas através de satélites e serviços direct-to-device, que ligam satélites diretamente a telemóveis. A Starlink ficou fora dessa parceria.
A FCC disse também que votará uma proposta para leiloar 25 megahertz de espectro destinado a serviços direct-to-device. O regulador votará em 29 de outubro a abertura de consulta pública sobre outra proposta para disponibilizar mais 482 MHz para cobertura suplementar a partir do espaço e atualizar as regras destes serviços.
O que isto significa
A compra dá à SpaceX mais controlo sobre uma parte crítica da infraestrutura móvel. O espectro é a faixa de frequências usada para transmitir sinal. Sem licenças suficientes, um operador pode ter dificuldade em oferecer cobertura consistente ou em ligar diretamente telemóveis à sua rede.
O impacto imediato recai sobre as telecoms norte-americanas. AT&T, Verizon e T-Mobile estavam a posicionar-se em conjunto para levar cobertura por satélite a zonas onde as redes terrestres não chegam bem. A SpaceX sinaliza que quer competir com uma solução própria, em vez de depender dessas operadoras.
A escala atual da Starlink dá peso a essa ambição. O serviço estava disponível em 205 países e tinha 12 milhões de subscritores em 30 de junho, de acordo com o relatório do segundo trimestre da SpaceX. A unidade de conectividade gerou 1,66 mil milhões de dólares de resultado operacional com 4,29 mil milhões de dólares de receita no período.
O acordo ainda não resolve todos os obstáculos técnicos. Tim Farrar, especialista da TMF Associates, disse que a quantidade de espectro continua limitada e que a SpaceX teria de instalar torres em terra para obter uma penetração fiável em edifícios urbanos. A aprovação da FCC e o desenvolvimento dessa infraestrutura passam a ser os próximos pontos a acompanhar.
Porque deves querer saber
A SpaceX aproxima-se do negócio móvel
A reação das ações mostra que o mercado levou a ameaça a sério. AT&T, Verizon e T-Mobile caíram após o fecho porque a SpaceX está a tentar garantir um recurso escasso que os operadores móveis usam para prestar serviço.
A baixa frequência dos 800 MHz é relevante porque tende a viajar melhor a longas distâncias e a atravessar obstáculos com mais facilidade do que frequências mais altas. Para a Starlink, isso pode ajudar a ligar cobertura por satélite e cobertura terrestre numa oferta móvel mais completa, se o regulador aprovar a compra.
O satélite entra no centro das telecoms
A disputa já não está limitada à cobertura de emergência ou a zonas remotas. A joint venture entre T-Mobile, AT&T e Verizon mostra que os grandes operadores também querem usar satélites para tapar falhas das redes móveis tradicionais.
A FCC está a preparar novas regras e leilões de espectro para serviços direct-to-device. Esse processo pode beneficiar a SpaceX e a Amazon, que também trabalha em redes de satélites. Para quem investe, o setor móvel norte-americano passa a depender mais da combinação entre licenças, satélites e infraestrutura em terra.





