Reino Unido enfrenta alerta sobre custos da dívida antes do orçamento
Andy Haldane, antigo economista-chefe do Banco de Inglaterra, avisou que o governo está em terreno frágil antes do Autumn Budget de 28 de outubro. Defendeu cortes na despesa pública para acalmar o mercado obrigacionista.
O que se passou
Andy Haldane, antigo economista-chefe do Banco de Inglaterra e membro do Comité de Política Monetária até 2021, disse à CNBC que o Reino Unido está em “thin ice” em termos orçamentais antes do Autumn Budget, marcado para 28 de outubro.
Haldane afirmou que o governo deve mostrar aos mercados financeiros que está disposto a cortar despesa pública. Na sua leitura, essa seria a forma mais eficaz de reduzir o risco de nova pressão sobre as obrigações do Estado britânico, conhecidas como gilts.
O Reino Unido tem agora os custos de financiamento público mais altos do G7, depois de vários anos de subida das yields das gilts num ambiente de instabilidade interna e global.
Haldane disse que os mercados obrigacionistas internacionais criaram um ambiente difícil para todos os governos, mas apontou fragilidades específicas do Reino Unido. Referiu inflação mais elevada e persistente, crescimento mais fraco e persistente, e a incapacidade de equilibrar as contas públicas neste século.
O orçamento será o primeiro do governo de Andy Burnham, que substituiu Keir Starmer no verão. O ministro das Finanças, John Healey, disse ao Financial Times que queria criar uma margem orçamental contra a incerteza, mas o governo ainda não detalhou todas as poupanças ou medidas fiscais necessárias para financiar as suas prioridades dentro das regras orçamentais.
O que isto significa
O mercado de dívida britânico volta a estar no centro da política económica. Quando as yields sobem, o Estado paga mais para se financiar, e isso limita a margem para aumentar despesa, cortar impostos ou apoiar a economia.
A comparação com o G7 pesa porque coloca o Reino Unido no extremo mais caro entre grandes economias avançadas. Para quem investe, isso torna o orçamento de 28 de outubro um teste à credibilidade fiscal do governo e à sua relação com o mercado obrigacionista.
Haldane defende que cortar despesa seria mais eficaz do que recorrer a aumentos de impostos dolorosos. O tema é sensível para o governo trabalhista, sobretudo nas áreas de pensões e apoios sociais, que têm impacto direto no défice e são politicamente difíceis de alterar.
As prioridades já anunciadas por Burnham e Healey complicam a equação. O governo quer aliviar o custo de vida, transferir mais poder para autoridades locais e aumentar a despesa em defesa, mas ainda não explicou como pagará tudo isso mantendo as regras orçamentais.
A possibilidade de impostos extraordinários sobre bancos, noticiada pela imprensa britânica, acrescenta outro ponto de tensão. Bancos com atividade no Reino Unido fizeram lobby contra essa hipótese, e Jamie Dimon, líder do JP Morgan, reuniu-se com Burnham e Healey em Londres no mês passado.
Porque deves querer saber
As gilts tornam o orçamento mais difícil
As obrigações do Estado britânico já chegam ao orçamento sob pressão. Com custos de financiamento acima dos restantes países do G7, qualquer medida vista como insuficiente pode manter o foco dos investidores na sustentabilidade das contas públicas.
Para quem tem exposição a dívida britânica, bancos ou ações ligadas à economia do Reino Unido, o orçamento de 28 de outubro pode mexer nas expetativas sobre taxas, impostos e crescimento. A reação dependerá do detalhe das medidas, não apenas da intenção de controlar a despesa.
A disciplina fiscal volta a mandar na política económica
O alerta de Haldane mostra como o mercado obrigacionista voltou a condicionar governos. Mesmo com prioridades sociais, defesa e custo de vida no topo da agenda, o espaço para gastar depende da confiança de quem compra dívida pública.
O Reino Unido junta inflação persistente, crescimento fraco e dívida cara. Essa combinação reduz a margem de erro e transforma decisões orçamentais em sinais para todo o mercado. Se o governo quiser cumprir as suas regras fiscais, terá de escolher entre cortes, impostos ou uma mistura dos dois.

