China mobiliza fundos estatais para conter queda das bolsas
O CSI 300 perdeu cerca de 20% desde o máximo de junho. Os bancos estimam compras de milhares de milhões de euros por entidades estatais, mas alertam que o apoio não garante uma recuperação duradoura.
O que se passou
Pequim está a recorrer a fundos de investimento e corretoras ligados ao Estado para comprar ações e tentar conter as perdas nas bolsas chinesas. Estas entidades, conhecidas como a «equipa nacional», procuram também desencorajar a saída de investidores.
O CSI 300, índice que reúne as principais empresas cotadas em Xangai e Shenzhen, está cerca de 20% abaixo do máximo de junho, uma queda que corresponde à definição técnica de mercado em baixa. Desde o início do ano, perdeu 10%.
O Goldman Sachs estima que os fundos estatais tenham comprado cerca de 170 mil milhões de yuan, quase 23 mil milhões de euros, em ETF durante outubro. Estes fundos negociados em bolsa permitem investir num conjunto de ações. O Bank of America aponta para compras superiores a 110 mil milhões de yuan, ou 14,8 mil milhões de euros.
Na quarta-feira, o CSI 300 subiu 0,9%, com o contributo das intervenções estatais. Os analistas do Macquarie estimam que as compras de ETF por entidades públicas na semana passada tenham sido as maiores desde o anúncio das tarifas comerciais de Donald Trump, em abril de 2025.
A pressão estende-se a Hong Kong. Os investidores da China continental venderam ações no valor de 20 mil milhões de dólares de Hong Kong, cerca de 2,3 mil milhões de euros, desde o início de outubro. O Hang Seng, principal índice daquela bolsa, perde mais de 12% este ano, enquanto o seu subíndice tecnológico recua mais de 30%.
O que isto significa
As compras estatais acrescentam procura de ações num momento em que os investidores estão a reduzir a exposição à China. Podem limitar as quedas no imediato, mas os analistas dos bancos de investimento alertam que esse apoio pode ser apenas temporário.
A fragilidade económica mantém-se. O consumo interno continua fraco e a crise imobiliária prolonga-se. O investimento em ativos fixos caiu 7,2% nos primeiros nove meses do ano face ao mesmo período do ano anterior, apesar do crescimento das exportações.
Os subsídios ao crédito à habitação anunciados em setembro foram considerados insuficientes por analistas perante as dificuldades do imobiliário. Ao mesmo tempo, diminuíram as expectativas de novos estímulos orçamentais de grande dimensão. Comprar ações não equivale a recuperar a procura na economia.
Se investes em ações chinesas, esta distinção ajuda-te a interpretar uma subida apoiada pelo Estado. Segundo os analistas, uma recuperação sustentada dependerá da retoma da procura interna, sobretudo quando as exportações deixarem de poder funcionar como principal motor do crescimento.
Porque deves querer saber
O Estado compra quando os investidores saem
As estimativas do Goldman Sachs e do Bank of America diferem, mas ambas apontam para compras estatais de grande dimensão em outubro. Essa procura pode amortecer as vendas, sem demonstrar que os investidores privados recuperaram a confiança.
A subida de 0,9% do CSI 300 na quarta-feira mostra uma melhoria imediata, não uma inversão confirmada da tendência. Se acompanhas estas bolsas, importa distinguir o efeito das compras públicas de uma melhoria nas perspetivas das empresas.
A corrida à IA não protege as ações chinesas
As empresas ligadas ao desenvolvimento de equipamentos para inteligência artificial estão entre as mais penalizadas. A CXMT, maior fabricante chinês de memórias DRAM, caiu 20% no último mês. A CATL, maior fabricante mundial de baterias, perdeu 37% nas ações cotadas em Shenzhen desde o início do ano.
Os esforços de Pequim para competir com os Estados Unidos na inteligência artificial não impediram estas perdas. O desenvolvimento de modelos de código aberto por empresas como a DeepSeek e a Moonshot convive com uma economia em abrandamento, o que mostra que o avanço tecnológico, por si só, não basta para sustentar as cotações.

