Santos Pereira muda prioridades no Banco de Portugal no primeiro ano
O governador alterou o projeto da nova sede, apertou recomendações no crédito à habitação e fechou um acordo de reforma com Mário Centeno. O ano também ficou marcado pela compra de ações, que teve de vender, doando as mais-valias.
O que se passou
Álvaro Santos Pereira assumiu a liderança do Banco de Portugal há um ano e usou o primeiro ano para mexer em dossiers internos e regulatórios. Na tomada de posse, defendeu a independência do banco central e sinalizou mudanças na regulação e na organização da instituição.
Um dos temas foi a saída de Mário Centeno da instituição. Santos Pereira fechou um acordo de reforma com o antecessor e disse que o Banco de Portugal poupa 2,2 milhões de euros face aos valores a que Centeno teria direito se continuasse na organização. O governador afirmou também que o acordo foi mútuo e cumpriu as regras.
Na sede, Santos Pereira alterou o projeto aprovado antes da sua chegada. Em maio de 2025, o Banco de Portugal tinha anunciado a compra de um edifício em Lisboa, na antiga Feira Popular, em Entrecampos, por 192 milhões de euros. O novo governador decidiu passar de dois edifícios para um, com uma solução que, disse no parlamento, custa menos 35 milhões a 40 milhões de euros e assenta numa aquisição por 165 milhões.
Na habitação, o banco central reduziu a taxa de esforço recomendada para os créditos de 50% para 45% e ajustou a maturidade máxima para 40 anos para pessoas até 35 anos. As regras aplicam-se a contratos com avaliação a partir de 1 de agosto e fazem parte de uma nova recomendação macroprudencial para crédito à habitação e ao consumo.
O mandato também teve um episódio de conflito reputacional. Santos Pereira comprou ações, foi obrigado a vendê-las e doou as mais-valias. O governador manteve ainda uma presença ativa na rede social X, com cerca de uma centena de publicações, e entrou em debates públicos, incluindo sobre as contas do setor da restauração.
O que isto significa
O Banco de Portugal ganhou uma liderança mais interventiva na forma como comunica e decide temas com impacto direto na banca. A habitação foi o centro do primeiro ano, porque as recomendações do supervisor condicionam a forma como os bancos avaliam novos créditos e a margem de endividamento das famílias.
A descida da taxa de esforço recomendada de 50% para 45% torna mais exigente o teste feito a quem pede crédito. A medida pode influenciar o ritmo de concessão de novo crédito à habitação nos bancos portugueses, sobretudo nos clientes mais sensíveis a subidas de juros.
A revisão do projeto da sede e o acordo com Centeno apontam para uma tentativa de controlar custos e fechar temas herdados. Esses dossiers não mexem diretamente nos resultados dos bancos cotados, mas contam para a credibilidade institucional do supervisor que acompanha o setor financeiro.
A compra de ações pelo governador deixa uma marca diferente. Mesmo com venda e doação das mais-valias, o episódio expõe a sensibilidade das regras de conduta numa entidade que supervisiona o sistema financeiro.
Daqui para a frente, o mercado vai olhar para a consistência entre discurso e prática. Um banco central mais ativo na habitação pode tornar as regras de crédito mais previsíveis, mas também mais exigentes para bancos e clientes.
Porque deves querer saber
O crédito à habitação ficou sob maior aperto
A redução da taxa de esforço recomendada para 45% mexe no filtro que os bancos usam para avaliar novos empréstimos. A recomendação não é uma taxa de juro, mas influencia a capacidade máxima de endividamento aceite no momento da concessão.
Isto interessa se acompanhas bancos com exposição ao crédito à habitação em Portugal. Regras mais prudentes podem travar algum crescimento em novos contratos, mas também reduzem o risco de incumprimento se as prestações voltarem a pesar mais nos orçamentos familiares.
O supervisor quer mostrar disciplina interna
A mudança no projeto da sede e o acordo de reforma com Mário Centeno mostram uma liderança focada em rever decisões herdadas. A nova solução para as instalações foi apresentada como mais barata e o acordo com o antigo governador foi justificado com uma poupança de 2,2 milhões de euros.
A disciplina interna conta porque o Banco de Portugal depende de credibilidade para supervisionar bancos e emitir alertas macroprudenciais. O episódio da compra de ações pelo governador tornou essa credibilidade mais sensível e aumentou a atenção sobre as regras de conduta dentro da instituição.

