Acordo de Trump com a Rússia cobre só 10 dias de procura de diesel nos EUA
A Rússia deverá colocar no mercado 4,8 milhões de toneladas métricas de diesel se o acordo for cumprido como anunciado por Donald Trump. A dimensão é pequena face ao consumo norte-americano e global.
O que se passou
Donald Trump anunciou que a Rússia vai fornecer de imediato 300 mil toneladas métricas de diesel ao mercado global. Uma tonelada métrica equivale a cerca de 7,45 barris, de acordo com a S&P Global Platts, o que coloca a primeira tranche em cerca de 2,24 milhões de barris.
Se esse volume fosse distribuído por um mês, corresponderia a cerca de 74.500 barris por dia. A procura total dos EUA era de 3,65 milhões de barris por dia na semana terminada a 2 de outubro, segundo a Energy Information Administration. A procura mundial supera 28 milhões de barris por dia, de acordo com a Agência Internacional de Energia.
Trump disse ainda que a Rússia deverá enviar 500 mil toneladas em novembro, equivalentes a 3,73 milhões de barris, seguidas de 1 milhão de toneladas, ou 7,45 milhões de barris. Moscovo poderá libertar mais 3 milhões de toneladas, equivalentes a 22,35 milhões de barris, numa data posterior e dependendo do estado das refinarias russas.
No total, o acordo chegaria a 4,8 milhões de toneladas métricas, ou 35,76 milhões de barris, se for executado como anunciado. Esse volume equivale a cerca de 10 dias de procura interna dos EUA ou pouco mais de um dia de consumo mundial.
A Goldman Sachs estimou que o diesel russo previsto para outubro e novembro reduziria os preços grossistas em apenas 1 a 2 dólares por barril na Costa do Golfo dos EUA e na Europa. Os futuros de diesel quase não reagiram na segunda-feira, fechando cerca de 1 cêntimo mais baixos, e estavam a negociar em alta na terça-feira.
O que isto significa
O acordo aparece num momento em que os preços do diesel pesam na inflação dos EUA. O combustível é usado no transporte de mercadorias e nas colheitas agrícolas, pelo que aumentos fortes acabam por passar para outros preços na economia.
Os preços médios do diesel nos EUA estavam em 6,28 dólares por galão na terça-feira, mais 72% do que no mesmo período do ano anterior, segundo a AAA. Com as eleições intercalares norte-americanas a menos de um mês, Trump enfrenta pressão para mostrar resposta aos custos dos combustíveis.
A escala do acordo limita a leitura de alívio. Mesmo cumprido na totalidade, o volume anunciado é pequeno perante a procura dos EUA e quase residual perante a procura mundial. A estimativa da Goldman Sachs aponta para um efeito modesto nos preços grossistas, não para uma mudança estrutural no mercado.
Também há incerteza sobre a origem do diesel. A Rússia tinha cortado exportações por causa dos ataques ucranianos a refinarias, oleodutos e instalações de armazenamento. O Kremlin afirmou no sábado que estava a levantar parcialmente a proibição de exportação para entregar os volumes previstos no acordo, segundo a agência estatal Tass.
Os EUA são exportadores líquidos de diesel, pelo que não dependem diretamente de oferta russa. Analistas da Kpler consideram que o diesel russo pode aliviar a concorrência por barris norte-americanos em mercados como o Brasil e a Turquia, sobretudo porque a União Europeia proibiu importações de crude e produtos refinados russos.
Porque deves querer saber
O impacto imediato nos preços parece curto
O número central para o mercado é a escala. A primeira entrega anunciada por Trump representa cerca de 2% da procura norte-americana de diesel e menos de 1% do consumo mundial.
A reação dos futuros de diesel reforça essa leitura. O contrato fechou quase estável na segunda-feira e subia na terça-feira, sinal de que os operadores não viram no acordo uma alteração material da oferta disponível.
A estimativa da Goldman Sachs dá uma medida do alcance financeiro. Uma descida grossista de 1 a 2 dólares por barril pode ajudar na margem, mas fica longe de compensar uma subida anual de 72% no preço médio do diesel nos EUA.
O acordo expõe a fragilidade do mercado de refinados
O problema não está apenas no crude. O diesel depende da capacidade de refinação, e essa capacidade tem sido afetada por ataques a refinarias russas e por perturbações no Médio Oriente, incluindo instalações atingidas no Irão e interrupções nas exportações pelo estreito de Ormuz.
Quando o combustível usado por camiões e maquinaria agrícola encarece, o choque espalha-se pela economia. A pressão aparece nos custos de transporte e na produção alimentar, o que torna o diesel politicamente sensível antes de eleições.
A Rússia pode ganhar margem comercial fora da União Europeia, onde as importações de produtos refinados russos estão proibidas. Países como o Brasil e a Turquia tornam-se mais relevantes na redistribuição destes fluxos, enquanto os EUA continuam a ter um papel importante como exportador líquido de diesel.

